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Uma análise de orientações sobre revisão e reescrita de textos científicos no universo digital

Resumo

Ao considerar o amplo alcance e a facilidade do acesso que o universo digital possibilita na propagação de ideias e conteúdos, bem como a necessidade de examinar a credibilidade e a qualidade de conteúdos com viés educativo e/ou instrutivo que são veiculados nas práticas comunicativas desse universo, este trabalho investiga o tratamento dado à revisão e à reescrita de textos científicos em sites e blogs nacionais que abordam a escrita acadêmico-científica. Fundamentado em trabalhos situados dentro de uma perspectiva sociointeracionista da linguagem articulada ao ensino da produção textual (GERALDI, 1997; ANTUNES, 2003; GARCEZ, 2010; SUASSUNA, 2011) e em estudos que abordam a escrita de textos acadêmico-científicos (RUSSEL, 2009; NAVARRO, 2014; CARLINO, 2017), este artigo realiza uma análise de natureza interpretativa e de base qualitativa de um corpus constituído por 40 textos com conteúdo a respeito da produção de artigos científicos e monografias coletados em sites e blogs como enago, Ciência prática, Lendo.org, Monografia urgente e TCC pronto. A análise aponta que a maioria dos sites e blogs investigados contemplam, de maneira precária e restrita, aspectos implicados na prática de escrever e reescrever textos científicos, contribuindo, assim, para produzir uma imagem fragmentada do que é efetivamente a atividade de produção de textos acadêmico-científicos.

Revisão e reescrita; Ensino; Escrita acadêmico-científica; Universo digital; Blogs e sites

Abstract

Considering the wide reach and ease of access that the digital universe allows in the propagation of ideas and content, as well as the need to examine the credibility and quality of content with an educational and / or instructive bias that are conveyed in the communicative practices of that universe, this study investigates the treatment given to text revision and rewriting of scientific texts on national websites and blogs that address academic-scientific writing. Based on a sociointeractionist perspective of articulated language to the teaching of writing (GERALDI, 1997; ANTUNES, 2003; GARCEZ, 2010; SUASSUNA, 2011) and in studies that address the writing of academic-scientific texts (RUSSEL, 2009 ; NAVARRO, 2014; CARLINO, 2017), this article carries out an interpretative and qualitative analysis of a corpus consisting of 40 texts with content on the writing of scientific articles and monographs extrated from websites and blogs such as enago, Ciência prática, Lendo.org, Monografia urgente and TCC Pronto. The analysis points out that most of the investigated sites and blogs contemplate, in a precarious and restricted way, aspects involved in the practice of writing and rewriting of scientific texts, thus contributing to produce a fragmented image of what academic text writing activity actually is.

Text revision and rewriting; Teaching; Academic-scientific writing; Digital universe; Blogs and websites

Introdução

A revisão e a reescrita de textos ocupam um lugar privilegiado no contexto das investigações desenvolvidas nos domínios da linguística teórica e aplicada e da educação (ALVES; BESSA, 2018a; 2018b; MAFRA; BARROS, 2017MAFRA, Gabriela Martins; BARROS, Eliane Merlin Deganutti de. Revisão coletiva, correção do professor e autoavaliação: atividades mediadoras da aprendizagem da escrita. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 6, n. 1, p. 33-62, jan./jun. 2017.; PEREIRA; LEITÃO, 2017PEREIRA, Regina Celi Mendes; LEITÃO, Poliana Dayse Vasconcelos. Mediação formativa na prática de elaboração de artigos científicos. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 6, n.1, p. 63-88, 2017.; FERREIRA; LINO, 2014; GASPAROTTO; MENEGASSI, 2013GASPAROTTO, Denise Moreira; MENEGASSI, Renilson José. A mediação do professor na revisão e reescrita de textos de aluno de ensino médio. Calidoscopio, São Leopoldo, v. 11, n. 1, p. 29-43, 2013.; PINTON, 2012PINTON, Francieli Matzenbacher. A reescrita do bilhete orientador pelo licenciando em letras: uma prática reflexivo-crítica no processo de avaliar textos. Leia Escola, Campina Grande, v. 11, n. 2, p. 9-24, 2012.; MENEGASSI; FUZA, 2012MENEGASSI, Renilson José; FUZA, Ângela Francine. Revisão e reescrita de textos a partir do gênero textual conto infantil. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 1, n. 1, p. 41-56, 2012.; dentre outros), no Brasil, em nossos dias. Mais particularmente, é tema de constantes problematizações no terreno das discussões acerca do ensino de línguas, sobretudo quando o foco é o trabalho com a produção textual em aulas de língua materna na educação básica (BELOTI; MENEGASSI, 2017; SCHALKOSKI-DIAS; NICOLA, 2017SCHALKOSKI-DIAS, Luzia; NICOLA, Rosane de Melo Santo. A perspectiva pragmática na avaliaçã formativa: caminhos para a formação do professor mediador na revisão textual. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 01, p. 199-222, jan./jun. 2017.; SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.; MARQUESI, 2011MARQUESI, Sueli Cristina. Escrita e reescrita de textos no ensino médio. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 135-143.; ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003., para citar alguns).

No cerne dessas investigações e discussões, está presente, via de regra, a compreensão de que não se pode mais conceber o trabalho com o texto produzido pelo aluno como um produto acabado em uma única versão (SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.; RUIZ, 2010RUIZ, Eliana. Como se corrige redação na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2010.; ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.), apesar de o enfrentamento de uma prática de produção textual concebida de modo processual se constituir, ainda, uma barreira (quase intransponível!) e um enorme desafio para muitos professores, especialmente quando se leva em consideração as dificuldades referentes às condições de trabalho, à formação teórica sólida do docente, ao desinteresse dos alunos quando solicitados a escreverem, às práticas de ensino de texto arraigadas etc.

Parece-nos evidente que, mesmo sendo tão desejáveis e necessárias, as atividades de revisão e reescrita de textos não são ainda práticas tão corriqueiras no exercício de produzir textos na escola nos diferentes níveis de ensino, apesar dos avanços teóricos sustentando a produção de textos como trabalho interativo, processual e dialógico, do surgimento de diversas propostas didático-pedagógicas (de didatização do trabalho com a escrita, inclusive) e da melhoria da qualidade das atividades presentes em livros didáticos de português.

Essas reflexões suscitadas nos parágrafos anteriores mobilizaram-nos para pensar a respeito das atividades de revisão e reescrita de textos no ensino superior, centrando nossa atenção especificamente em relação ao trabalho com a produção de textos científicos. Se entendemos que revisar e reescrever são indissociáveis a todo ato de produzir textos, tal entendimento torna-se um imperativo quando concebemos a produção de textos científicos em tempos de produtividade, mais especialmente ainda quando tratamos de produção de textos para publicação em periódicos mais qualificados, nos quais os exigentes critérios de submissão de trabalhos alçam a qualidade da escrita como um critério decisivo para aceitação da publicação (PAGLIARUSSI, 2017PAGLIARUSSI, Marcelo Sanches. Estrutura e redação de artigos em contabilidade e organizações. Revista de Contabilidade e Organizações, Ribeirão Preto, v. 11, n 31, p. 5-10, 2017.).

É considerando esse contexto e partindo da compreensão de que estudantes e pesquisadores em início de carreira, na graduação e na pós-graduação, não revelam muita clareza acerca do funcionamento e das convenções da esfera científica (NAVARRO, 2014NAVARRO, Frederico. Géneros discursivos e ingresso a las culturas disciplinares: aportes para uma didáctica de la lectura y la escritura en educación superior. In: NAVARRO, Frederico. (coord.), Manual de escritura para carreras de humanidades. Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras Universidad de Buenos Aires, 2014. p. 29-52.) que acreditamos ser fundamental contemplar em livros, manuais de redação científica e materiais educativos instrucionais, disponíveis em bibliotecas, em salas de aula e espaços virtuais, a apresentação de orientações e sugestões voltadas à revisão e à reescrita de textos científicos sob pena, portanto, de estarem comprometendo a compreensão da natureza processual que caracteriza a atividade de produção de textos.

Assim sendo, pretendemos aqui nos interrogar a respeito do tratamento dado à revisão e à reescrita de textos em materiais de natureza educativa e/ou instrutiva, que circulam no universo da internet, destinados a apresentar orientações para o desenvolvimento de uma escrita bem-sucedida de textos científicos. Especificamente, examinaremos em que medida os materiais recortados contemplam orientações acerca das atividades de revisão e reescrita de textos científicos e como eles concebem e encaminham/direcionam o desenvolvimento dessas atividades, buscando, por fim, avaliar as possíveis contribuições de tais orientações para uma escrita científica adequada e relevante comunicativamente.

Focalizaremos, mais especificamente, orientações voltadas à escrita de artigos científicos e monografias, haja vista a importância desses gêneros do discurso na esfera científica, assim como o nosso interesse em pesquisar gêneros que comumente estão implicados nas práticas escriturais de pesquisadores em início de carreira. Nossa opção por materiais recortados da internet justifica-se pelo amplo alcance e pela facilidade do acesso que o universo digital possibilita na propagação de ideias e conteúdos, bem como pela necessidade de examinar criticamente a credibilidade e a qualidade dos conteúdos com viés educativo que são veiculados nas práticas comunicativas desse universo. Tais escolhas realçam, pois, a relevância deste trabalho, seja no plano teórico-reflexivo, seja na dimensão do ensino da produção escrita (científica) que tem caracterizado nossos interesses de pesquisa.

Para fundamentar este empreendimento de pesquisa, buscamos respaldo teórico em trabalhos situados, centralmente, dentro de uma perspectiva sociointeracionista da linguagem articulada ao ensino. Nesse sentido, reportamo-nos, especialmente, a estudos que discutem a produção textual como atividade interlocutiva, processual, dialógica. Além disso, buscamos estabelecer diálogos com trabalhos que abordam a escrita de textos acadêmico-científicos considerando as especificidades que caracterizam os modos de produzir e socializar o conhecimento no universo científico.

A atividade de produção e reescrita de textos: da educação básica ao ensino superior

Desde longa data, mais acentuadamente a partir da década de 80, a produção de textos concebida como atividade interlocutiva e processual é tematizada nos domínios dos estudos linguísticos, notadamente da Linguística Aplicada e da Educação. Tal temática passa, assim, a ocupar expressivo espaço nos debates a respeito do ensino de línguas, especialmente de língua materna, no Brasil, inserindo-se em um contexto em que se defende o texto como objetivo de ensino da língua, a qual encontra, em uma concepção de linguagem em perspectiva interacional (GERALDI, 1997GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.; ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.), sua ancoragem teórica central.

Focalizadas, inicialmente, no contexto do trabalho com a prática de produzir textos na educação básica, a revisão e a reescrita textual passaram a ser enfrentadas e problematizadas também nas práticas de produção de textos na universidade, seja na graduação, seja na pós-graduação, como demonstram trabalhos de Gehrke; Cabral (2017)GEHRKE, Nara Augustin; CABRAL, Sara Regina Scotta. A reescrita e a qualificação do processo de produção de microcrônicas verbo-visuais. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 01, p. 127-149, jan./jun. 2017., Ferreira; Lino (2014), Bernardino et al. (2014), Pinton (2012)PINTON, Francieli Matzenbacher. A reescrita do bilhete orientador pelo licenciando em letras: uma prática reflexivo-crítica no processo de avaliar textos. Leia Escola, Campina Grande, v. 11, n. 2, p. 9-24, 2012., Martins; Araújo (2012)MARTINS, Cínthya da Silva; ARAÚJO, Nukácia Meyre Silva. A prática de revisão orientada de dissertações de mestrado: as sugestões do revisor-leitor, as estratégias do revisor-autor. Signum, Londrina, v. 15, n. 2, p. 257-287, 2012., dentre outros.

Hoje, portanto, parece consensual a compreensão de que a atividade de produzir textos, em qualquer nível de ensino/formação, não corresponde a uma atividade estanque, pontual, encerrada em um único ato da relação do sujeito da escrita com o papel e/ou a tela do computador/laptop. Pelo contrário, concebe-se a produção de textos como um processo interativo, resultante de sucessivas versões, que implicam, conforme Antunes (2003)ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003., etapas distintas e integradas, compreendendo planejamento, execução e revisão. Assim, além do ato de operar a versão inicial, a atividade de produzir textos na escola/universidade implica considerar uma etapa prévia de planejamento e as etapas subsequentes de revisar e reescrever. Logo, produzir textos, nessas condições, compreende um trabalho cooperativo/colaborativo entre, pelo menos, dois sujeitos postos em uma relação interlocutiva concreta (GARCEZ, 2010GARCEZ, Lucília Helena do Carmo. A escrita e o outro: os modos de participação na construção do texto. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 2010.) de produção de sentidos.

No campo da didática do ensino da escrita de textos no espaço escolar, na qual a discussão sobre reescrita-revisão textual encontra-se muito bem estabelecida, pesquisadores como Pasquier e Dolz (1996)PASQUIER, Auguste; DOLZ, Joaquim. Um decálogo para ensinar a escrever. Cultura y Educación, Madrid, v. 2, p. 31-41, 1996. entendem a revisão como atividade integrante da escrita. Nesse sentido, propõem que, na aprendizagem da escrita de determinado gênero textual, seja considerado um tempo entre a escrita da primeira versão e o momento da revisão-reescrita, de modo a possibilitar o distanciamento necessário para que o aluno possa refletir acerca de sua produção e, nela, operar modificações.

O entendimento proposto Pasquier e Dolz (1996)PASQUIER, Auguste; DOLZ, Joaquim. Um decálogo para ensinar a escrever. Cultura y Educación, Madrid, v. 2, p. 31-41, 1996. de que a revisão constitui um dos momentos fortes no que concerne à aprendizagem da produção textual encontrou terreno fértil em propostas de ensino de língua materna. Exemplo disso são as concepções expressas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), em materiais didáticos e na agenda de debates de pesquisadores e profissionais do ensino em eventos científicos, de tal maneira que parece incontestável pensarmos a escrita de modo processual, conquanto, na prática de sala de aula, essa proposta não tenha se concretizado plenamente.

Apesar disso, não podemos deixar de considerar que, se o trabalho com revisão constitui um dos momentos mais relevantes na aprendizagem de produção textual, a atividade de mediação do professor, via intervenção, como, por exemplo, nos termos propostos por Ruiz (2010)RUIZ, Eliana. Como se corrige redação na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2010., e acompanhamento do processo, em suas sucessivas etapas e versões, é fundamental para que o aluno possa progredir no aprendizado da escrita. Ao tratar da importância da forma dialógica de mediação pedagógica e ao enfatizar o papel do par mais desenvolvido nesse processo, Suassuna (2011)SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134. sublinha que, no trabalho de mediação, o papel do professor não é de um mero identificador de problemas textuais, mas, sim, de:

[...] um propiciador e facilitador da reflexão, na medida em que permite que o redator (aluno) seja exposto à interpretação do outro, passando a compreender melhor como seu discurso está sendo lido e de que forma essa leitura foi construída. (SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134., p. 119).

No universo acadêmico-científico, o trabalho com a revisão e a reescrita textual não deixa de ser menos desafiador, sobretudo quando levamos em consideração que alguns alunos chegam do ensino médio sem a experiência de escrever versões sucessivas de um texto, demonstrando, não raras vezes, pouca disposição para produzirem textos, quando solicitados. Além disso, é preciso considerar que, ao adentrar no universo acadêmico-científico, o estudante passa a fazer parte de um novo contexto, no qual está implicada uma “escrita muito mais especializada” (RUSSEL, 2009RUSSEL, David. Letramento acadêmico: leitura e escrita na universidade. Conjectura, Caxias do Sul, v. 14, n. 2, p. 241-247, 2009. Entrevista realizada por Flávia Brocchetto Ramos Vânia Marta Espeiorin., p. 242):

[...] os alunos devem aprender a usar vocabulários especializados [...]. No entanto, eles também precisam aprender novos gêneros ou formas, aqueles que sejam apropriados à pesquisa em determinado campo, pelo menos em níveis mais avançados de educação superior. (RUSSEL, 2009RUSSEL, David. Letramento acadêmico: leitura e escrita na universidade. Conjectura, Caxias do Sul, v. 14, n. 2, p. 241-247, 2009. Entrevista realizada por Flávia Brocchetto Ramos Vânia Marta Espeiorin., p. 242).

Assim, muito mais que simplesmente mobilizar as habilidades de leitura e escrita adquiridas em etapas anteriores da formação escolar, as convenções próprias das culturas disciplinares e as exigências inerentes à atividade de produzir textos para socialização do conhecimento desempenham, de acordo com o que depreendemos dos dizeres de Navarro (2014)NAVARRO, Frederico. Géneros discursivos e ingresso a las culturas disciplinares: aportes para uma didáctica de la lectura y la escritura en educación superior. In: NAVARRO, Frederico. (coord.), Manual de escritura para carreras de humanidades. Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras Universidad de Buenos Aires, 2014. p. 29-52. e Carlino (2017)CARLINO, Paula. Escrever, ler e aprender na universidade: uma introdução à alfabetização acadêmica. Petrópolis: Vozes, 2017., papéis cruciais nas práticas sociais de leitura e escrita desenvolvidas no contexto acadêmico-científico, incluindo aí, evidentemente, as práticas de revisão e reescrita de textos científicos.

Consideradas as especificidades e as finalidades que presidem as práticas de leitura e de escrita de textos no universo acadêmico-científico, especialmente quando voltadas para a produção e socialização do conhecimento, tanto quanto o encorajamento para a produção do texto, é fundamental um trabalho que enfatize a importância e a necessidade do olhar do outro sobre o próprio texto. Trata-se de um olhar que, para ser produtivo e efetivo, não pode, conforme nos indica Suassuna (2011)SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134., estar voltado apenas para buscar erros e problemas, mas para fazer com que o aluno se desloque de sua posição de enunciador para a posição de leitor e possa, a partir do distanciamento que esse deslocamento implica, refletir sobre suas escolhas e avaliá-las na reconstrução do seu texto.

Não podemos deixar de admitir que, muitas vezes, falta, no ambiente acadêmico, sobretudo entre os pesquisadores em início de carreira, a capacidade de entender as críticas ou rejeições recebidas em um trabalho em processo de avaliação como parte do processo de escrita e de formação do pesquisador. Por isso, pensamos que um enfrentamento apropriado em relação à dificuldade de superar o medo das críticas e rejeições, no processo de produção e publicação de textos científicos, talvez esteja na compreensão e aceitação daquilo que Munger (2016MUNGER, Michael. 10 tips on how to write less badly. In: Focus Chronicle of Higler Education (ed.). A guide to writing good academic prose. Washington, DC: [s. n.], 2016. p. 11-12. Disponível em: https://www.chronicle.com/resource/a-guide-to-writing-good-academ/5877/. Acesso em: 30 fev. 2018.
https://www.chronicle.com/resource/a-gui...
, p. 12) aponta: “Ninguém tem primeiros rascunhos bons. A diferença entre um acadêmico bem-sucedido e um fracassado não precisa ser melhor escrita. Muitas vezes é mais adição”. É, pois, demonstrar capacidade de assimilar e incorporar do elogio à crítica, fazendo da escrita do texto um movimento de idas e vindas (ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.), ou seja, de permanente aprimoramento, como condição, portanto, de uma melhoria significativa da qualidade do manuscrito.

Assim, fica evidente que, conquanto seja desafiador, é essencial e necessário um trabalho efetivo de intervenção do professor, de modo explícito e orientado (NAVARRO, 2014NAVARRO, Frederico. Géneros discursivos e ingresso a las culturas disciplinares: aportes para uma didáctica de la lectura y la escritura en educación superior. In: NAVARRO, Frederico. (coord.), Manual de escritura para carreras de humanidades. Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras Universidad de Buenos Aires, 2014. p. 29-52.), com vistas à ressignificação das práticas com textos na escola/universidade, em uma perspectiva de contribuir para melhorar a relação do aluno com a reescrita do próprio texto. É preciso, assim, pensar a criação de condições efetivas para que o aluno se torne um produtor com mais autonomia e, por conseguinte, potencialize a qualidade da produção a ser veiculada, especialmente nesse contexto de exigência, cada vez mais crescente, de textos científicos qualificados.

Metodologia

Considerando que nosso foco de preocupação, neste trabalho, está voltado para questões de uso de linguagem num contexto específico, das práticas comunicativas do universo digital que (re)produzem sentidos sobre a atividade de escrever textos científicos, nossa investigação se situa no domínio da Linguística Aplicada (SIGNORINI; CAVALCANTI, 1998SIGNORINI, Inês; CAVALCANTI, Marilda. Linguística aplicada e transdisciplinaridade: questões e perspectivas. Campinas: Mercado de Letras, 1998.) em interface com o campo da educação.

Em consonância com o direcionamento das investigações em Linguística Aplicada, nossa pesquisa caracteriza-se como de natureza interpretativa, porquanto o que nos interessa essencialmente é a dimensão da construção de sentidos operada pelo pesquisador – o qual não pode ser entendido, conforme destacam Laville e Dionne (1999)LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Tradução de Heloísa Monteiro e Francisco Settineri. Belo Horizonte: UFMG, 1999., como um sujeito neutro, apagado no processo de pesquisa – no diálogo estabelecido com os fenômenos pesquisados, que, no nosso caso, são os textos recortados dos sites e blogs. Nessa perspectiva, a análise dos dados assume o viés da abordagem qualitativa de pesquisa, ainda que a dimensão quantitativa seja mobilizada em alguma medida.

O corpus que constitui o presente trabalho é composto por 40 textos com orientações para escrita de textos científicos, mais especificamente de artigos científicos e monografias que tratam da prática de escrever textos científicos. São, em particular, 20 textos com orientações para a escrita de artigos científicos e 20 com orientações para a escrita de monografia, os quais foram retirados de blogs e sites, tais como: enago, Ciência prática, Lendo.org, Pós-Graduando, Monografia urgente, Textuar, TCC pronto e Como escreve.

Considerando os nossos objetivos e que, também, num primeiro olhar, não verificamos diferenças significativas no funcionamento das orientações que circulam em sites e blogs, optamos por não fazer aqui distinção entre orientações recortadas nesses dois espaços de circulação. Isso também explica por que não propomos um estudo de natureza comparativa.

Os textos que compõem o corpus deste trabalho fazem parte de um banco de dados de pesquisas sobre escrita científica desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa em Produção e Ensino do Texto (GPET), do qual fazemos parte como pesquisadores. Tais textos foram pesquisados na internet, no período de novembro de 2017 a fevereiro de 2018, a partir do buscador do Google, utilizando, para isso, descritores como os seguintes: Como fazer uma monografia, Como fazer um artigo científico, Como estruturar um artigo científico. A partir dessa busca, pudemos coletar uma variedade de textos, alguns dos quais apresentam títulos como: Passo a passo para fazer uma monografia nota 10; Como fazer uma monografia de sucesso; Como fazer uma monografia num fim de semana; 7 dicas para agilizar a escrita do artigo científico; Primeiros passos para escrever um artigo cientifico; Como escrever um artigo de sucesso.

Após a coleta do corpus, sua codificação2 2 - Os textos que compõem o corpus foram por nós codificados observando a seguinte identificação: OAC1, OAC2, OAC3..., e assim por diante, em que O corresponde à Orientação, AC se referem às letras iniciais do termo Artigo Científico, e os numerais cardinais 1, 2, 3... correspondem à ordem numérica, estabelecida aleatoriamente, dos textos em nosso corpus. Quando, em vez de AC, utilizamos M, significa dizer que a codificação se refere à Monografia. e o salvamento de cada texto em arquivo do Word, passamos à etapa de análise do material recortado. Os procedimentos de análise incluíram, inicialmente, uma leitura e releitura criteriosa de todos os textos coletados, seguida de identificação das ocorrências de menção explícita, no material recortado, à revisão e à reescrita de textos científicos e, posteriormente, elaboração de categorias de análise. Depois disso, procedemos à descrição, análise e interpretação dos dados, conforme nos propomos a apresentar na próxima seção.

Análise de orientações sobre revisão e reescrita de textos científicos no universo digital

Nesta seção, centraremos nossa atenção no exame dos 40 textos com orientações a respeito da revisão e da reescrita de textos científicos retirados de blogs e sites da internet. Nosso propósito de investigar o tratamento dado à revisão e à reescrita de textos no material recortado visa, inicialmente, a identificar a presença de orientações sobre revisão e reescrita de textos científicos; e, em seguida, a examinar como são concebidas e encaminhadas as orientações apresentadas, buscando, a partir daí, avaliar as possíveis contribuições de tais orientações para uma escrita científica adequada e relevante comunicativamente.

O entendimento que vem se firmando, no plano teórico, de que a produção de textos é uma atividade interativa e processual, na qual estão implicadas etapas sucessivas e trabalho cooperativo/colaborativo entre sujeitos (ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.; SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.), parece, conforme indica nossa análise, não ter encontrado ainda o devido e esperado espaço nos sites e blogs examinados. Dada a reconhecida importância que a revisão e a reescrita têm para o aprimoramento da escrita, constatamos que a presença de orientações sobre essas etapas do processo de produção textual é bastante tímida e restrita, tanto pelo espaço/volume textual que lhes é destinado (no mais das vezes, restrito a, em média, 10 linhas) quanto pela recorrência de sites e blogs que trazem algum tipo de orientação. Essa nossa leitura pode ser ratificada mediante um levantamento quantitativo da recorrência da presença das orientações nos sites e blogs examinados, demonstrada no gráfico a seguir:

Gráfico 1
– Presença de orientação sobre revisão e reescrita textual

Ainda que os sites e blogs examinados apresentem orientações sobre revisão e reescrita textual, os dados do gráfico demonstram a existência de um número menor de sites e blogs, tanto naqueles que tratam do gênero monografia (que corresponde a 75%) como naqueles que focalizam o gênero artigo científico (que corresponde a 55%), que apresentam explicitamente orientações com esse foco. Nos dois casos, o percentual de sites e blogs que não apresentam orientações supera 50%, revelando-se, inclusive, muito expressivo quando se trata da apresentação de orientações para a produção do gênero monografia.

O percentual mais elevado de sites e blogs que trazem orientações sobre a revisão e reescrita de artigos científicos pode ser um indicador de que o foco numa audiência mais ampliada e na publicação em periódicos qualificados tende a induzir a ênfase que se dá, nessas orientações, ao papel crucial do ato de revisar. Como a monografia é um gênero que, via de regra, fica mais restrito ao contexto de finalização de curso de graduação ou de pós-graduação lato sensu, sem uma perspectiva mais clara de publicação em periódicos, e, além disso, considerando a condição de pesquisador menos experiente ou em início de formação própria de um estudante de graduação, o valor da revisão e reescrita acaba, infelizmente, sendo minimizado nesse contexto.

Apesar disso, constatar que esses sites e blogs trazem explicitamente essas orientações é, de algum modo, animador, muito embora, evidentemente, não se possa negar que há aí uma lacuna necessária de ser preenchida, caso pensemos em disseminar, entre estudantes de graduação e pesquisadores em início de carreira, o valor da revisão e da reescrita de textos como indissociáveis da escrita (ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.; PASQUIER; DOLZ, 1996PASQUIER, Auguste; DOLZ, Joaquim. Um decálogo para ensinar a escrever. Cultura y Educación, Madrid, v. 2, p. 31-41, 1996.; SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.), tendo em vista a necessidade que enfrentamos de investir um pouco mais na formação na e para a escrita científica durante a graduação.

Considerando que a análise acima aponta a existência de um espaço, apesar de restrito ainda, destinado à apresentação de orientações sobre revisão e reescrita de textos científicos nos sites e blogs pesquisados, cumpre-nos examinar como, nessas orientações, a revisão e a reescrita são concebidas e encaminhadas.

Nosso olhar sobre o corpus permitiu identificar alguns aspectos relativos à revisão e à reescrita de textos científicos que são contemplados/focalizados nas orientações dos sites e blogs analisados. Os aspectos contemplados/focalizados que identificamos foram organizados em 5 categorias de análise, quais sejam: i) reconhecimento da importância e necessidade da revisão e reescrita; ii) indicação de participantes/sujeitos envolvidos; iii) delimitação de elementos/aspectos do texto a serem revisados; iv) delimitação de quantidade de revisões e/ou reescritas; e v) indicação de distanciamento temporal.

i) reconhecimento da importância e necessidade da revisão e reescrita

Embora nem todos os sites e blogs deem, de fato, a devida importância à revisão e à reescrita de textos, a julgar pelo espaço que lhes é reservado, 03 (três) deles são muito enfáticos em destacar a importância e necessidade de se praticar o revisar e o rescrever, especialmente em contexto de escrita de artigo científico para publicação em periódicos.

(1)

Vale ressaltar que as duas dicas anteriores estão relacionadas a uma parte muito importante da elaboração do seu trabalho: a revisão. Não economize nessa etapa — ela é crucial para o resultado final. (OAC8) (grifos são nossos).

(2)

Uma coisa que você vai aprender logo nas primeiras conversas com seu orientador da monografia, é que a revisão é algo extremamente necessário para chegar a um resultado final apropriado. Você vai fazer o texto, revisar e encaminhar para o seu orientador. [...]. Você pode se irritar, o seu professor pode exigir demais, o prazo pode apertar algumas vezes, mas, tudo isso faz parte da vida universitária. Respire profundamente, volte aos livros, reabre o seu editor de texto e se concentre no texto mais um pouco. (OM9) (grifos são nossos).

É possível perceber, nos dois excertos, que a revisão/reescrita textual é concebida como momento fundamental no processo de escrita de textos científicos, sendo valorada como etapa crucial e extremamente necessária para se obter um produto apropriado, de qualidade. Observamos aí a ideia de que, por mais complexo, custoso e exigente que seja o percurso que vai da primeira versão ao texto final, o produtor não deve economizar esforços para produzir um texto científico de qualidade e ser bem-sucedido na publicação científica (MUNGER, 2016MUNGER, Michael. 10 tips on how to write less badly. In: Focus Chronicle of Higler Education (ed.). A guide to writing good academic prose. Washington, DC: [s. n.], 2016. p. 11-12. Disponível em: https://www.chronicle.com/resource/a-guide-to-writing-good-academ/5877/. Acesso em: 30 fev. 2018.
https://www.chronicle.com/resource/a-gui...
).

Além disso, observamos, especialmente no excerto 2, uma demonstração de que, tanto quanto seja necessário praticar o revisar e o reescrever, é determinante que o produtor, sobretudo aquele em início de carreira, aprenda/assimile o papel essencial da revisão e reescrita na qualificação da versão final de uma monografia ou de um artigo científico. Essa orientação de 0M9 sinaliza o entendimento de que ainda é bastante desafiador fazer o aluno, principalmente de graduação, compreender e aceitar a necessidade de revisar e reescrever seus textos.

ii) indicação dos participantes/sujeitos envolvidos na cena da revisão e reescrita

Nem todas as orientações analisadas por nós mencionam e/ou assumem explicitamente a escrita de textos científicos como processo interativo e colaborativo, que pode envolver a participação de interlocutores, principalmente no percurso entre a versão inicial e final de um texto (GARCEZ, 2010GARCEZ, Lucília Helena do Carmo. A escrita e o outro: os modos de participação na construção do texto. Brasília, DF: Universidade de Brasília, 2010.; SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.). Há, contudo, 08 (oito) sites e blogs, dentre os 14 (quatorze) que apresentam orientações, mencionando a necessidade de o produtor, seja do artigo científico, seja da monografia, considerar um interlocutor para colaborar com a revisão e reescrita do texto.

Nos excertos que reproduzimos a seguir, há indicações explícitas de que o produtor pode contar com diferentes interlocutores no processo de revisão e reescrita textual:

(3)

Caso seja possível, vale muito a pena submeter o artigo a mais um leitor, que pode ser o seu professor, um colega da área ou mesmo um profissional de revisão — esse detalhe fará toda a diferença. Seja como for, reserve alguns dias para essa revisão no seu cronograma. (OAC8) (grifos são nossos).

(4)

Não cometa erros banais. Checar a ortografia é o primeiro passo para a finalização de sua monografia! Utilize programas computacionais que executem essa tarefa e/ou consiga um amigo ou professor que faça a revisão para você. (OM19) (grifos são nossos).

Nos excertos (3) e (4), as orientações a respeito da produção do artigo científico e da monografia indicam muito claramente a possibilidade de o produtor dialogar, nas etapas de revisão e reescrita dos textos, com, pelo menos, quatro possíveis interlocutores: o professor, um colega de área, um amigo e um profissional especializado.

Podemos considerar que, dependendo da rede de contatos estabelecida, o produtor pode contar com um ou mais interlocutores, um colega e um professor, por exemplo, para contribuir com a escrita/revisão de seu texto, atuando com um mediador nesse processo (SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.). Quando, por exemplo, se produz em equipe de pesquisa, e/ou o texto tem mais de um autor, o trabalho de revisão e reescrita tende a ser mais exercitado e, por conseguinte, colaborar muito mais para o aprimoramento da versão final do texto, como comprova o seguinte excerto: “Geralmente, os artigos científicos são produzidos por vários autores, o que permite que o trabalho passe por reformulações a partir da leitura dos demais”. (OAC14).

É interessante observar que, tanto nos excertos (3) e (4) quanto nas outras orientações dos sites e blogs examinados, não há referência ao orientador como interlocutor para colaborar com o trabalho de revisão e reescrita. Isso, de certa forma, esclarece-nos que, conquanto ele possa exercitar essa atividade em alguma medida, revisar e reescrever não são atribuições de um orientador, como, equivocadamente, muitos ainda fazem pensar.

Há casos de orientações que citam apenas o próprio produtor do texto como executor da revisão, salientando, porém, que essa atividade não deve ser feita imediatamente após o ato da escrita da primeira versão do texto: “Ao terminar de escrever um artigo científico, espere alguns dias antes de submetê-lo ao periódico selecionado. Depois de alguns dias sem pensar no assunto, faça uma revisão do artigo”. (OAC1). Há, ainda, nos blogs e sites analisados, orientações que indicam que o produtor deve recorrer a um revisor de inglês, principalmente diante de uma publicação de artigo científico em periódico internacional. Entretanto, isso não dispensa, evidentemente, um trabalho anterior de revisão e reescrita do texto, na língua materna, que inclua outros interlocutores.

Por fim, merece destaque a menção, constatada no excerto (2), acerca da possibilidade de uso de programas computacionais no trabalho de revisão e reescrita, cuja indicação sugere uma visão um tanto estreita da atividade de revisão e reescrita, uma vez que, como sabemos, um recurso desse tipo, por seu funcionamento automático, não dá conta da complexidade que recobre a trama textual e discursiva que constitui um enunciado complexo (BAKHTIN, 2016BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2016.), como um artigo científico ou uma monografia, por exemplo. Um recurso desse pode ser útil, no máximo, para dar conta de aspectos mais pontuais que recobrem a ortografia, o léxico, a sintaxe e a concordância em estruturas oracionais menos complexas. Entretanto, não pode ser nunca a única alternativa da qual deve se valer um produtor de textos preocupado com a mensagem (em seu conteúdo e em sua forma) que pretende transmitir para os seus interlocutores/leitores.

Conforme observamos em alguns desses excertos, a falta de indicação feita por um mediador (SUASSUNA, 2011SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134.) experiente e efetivo, que oriente e faça intervenções, sugere a inexistência, na atividade de produção escrita, do olhar de um outro sujeito que favoreça, conforme Antunes (2013), a identificação de problemas e o apontamento de correções necessárias à adequação do texto.

iii) delimitação de elementos do texto a serem revisados

O que revisar? Que elementos devem ser apontados na revisão e considerados na reescrita de textos? Tais indagações, imprescindíveis à discussão sobre a temática em foco, foram objeto de nosso olhar nos sites e blogs analisados. Conforme já sinalizado, um trabalho de revisão e reescrita que leve em conta a efetividade da prática de produção de textos em situações concretas de interação (GERALDI, 1997GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.) e que considere o complexo e multifacetado funcionamento da linguagem em enunciados como os gêneros discursivos da esfera científica deve contemplar múltiplos elementos do funcionamento desses gêneros, desde aqueles de ordem estritamente linguística àqueles de ordem textual, discursiva e/ou enunciativa (PASQUIER; DOLZ, 1996PASQUIER, Auguste; DOLZ, Joaquim. Um decálogo para ensinar a escrever. Cultura y Educación, Madrid, v. 2, p. 31-41, 1996.). Precisa, assim, considerar as dimensões do conteúdo, da estrutura composicional e do estilo, constitutivas e típicas dos enunciados da esfera científica (BAKHTIN, 2016BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2016.).

O exame dos blogs e sites aponta uma primazia de orientações de revisão e reescrita centradas nos elementos de ordem linguística, com uma ênfase bastante acentuada em aspectos gramaticais, em erros ortográficos e em problemas de pontuação, como podemos constatar nos excertos a seguir:

(5)

Elimine o máximo de erros de gramática.

Para isso você deve ler e reler o quanto for necessário. Erros de ortografia são inaceitáveis em artigos científicos. Lembre-se, também, de ter cuidado com a pontuação! (OAC20) (grifos são nossos).

(6)

A revisão feita por uma terceira pessoa é fundamental, pois quem escreve já leu o trabalho muitas vezes e pode saltar alguma incongruência gramatical ou de sintaxe que uma terceira pessoa detecta na hora. Por vezes é necessário reescrever uma frase ou acertar os tempos verbais, ou ainda outros pormenores que quem faz a monografia já nem nota. (0M13) (grifos são nossos).

A preocupação com a apresentação de orientações centradas, quase sempre, em elementos como os destacados acima é manifestada nas orientações sobre revisão e reescrita tanto do gênero monografia quanto do gênero artigo científico, com uma ênfase maior naquelas voltadas para a produção do gênero monografia. Essas orientações, entretanto, não apontam, na maioria das vezes, quais aspectos gramaticais devem ser focalizados, à exceção de OM13, em que podemos constatar a menção ao aspecto da sintaxe e do uso de tempos verbais, sem, contudo, apresentar uma melhor contextualização e exemplificação dessas questões.

Ainda que o foco seja a apresentação de orientações de revisão e reescrita centradas em elementos de natureza linguística, há espaço para outros elementos, como, por exemplo, normatização técnica (OM13, OAC3 e OAC15) e de tradução de línguas (OAC3), principalmente quando se trata da produção do gênero artigo científico com vistas à publicação em periódicos especializados. Há espaço, também, para elementos que recobrem a dimensão textual implicada no funcionamento da linguagem, quando, nas orientações, aparece a preocupação com a “coerência das ideias”, “conteúdo lógico” e “linguagem”:

(7)

Procure por erros ortográficos e/ou gramaticais. Assegure-se de que todo o conteúdo é lógico, coerente e perceptível. Seguindo esse passo crucial, certamente seu projeto de monografia será um trabalho impressionante e profissional. (OM14) (grifos são nossos).

(8)

O ideal é revisar o seu artigo, pelo menos, duas vezes. Uma para detectar problemas de conteúdo (ideias repetidas ou pontas soltas no texto, por exemplo), e outra para avaliar a linguagem e a gramática. (OAC8) (grifos são nossos).

Os excertos (5), (6), (7) e (8) confirmam o direcionamento reducionista e genérico das orientações ora analisadas em relação aos elementos que devem ser considerados nas etapas de revisão e reescrita textual consoante uma perspectiva interacional (GERALDI, 1997GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.; ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.) de linguagem. Como percebemos, é ignorada, por exemplo, qualquer referência à situação de enunciação, à dimensão da estrutura composicional do texto, assim como das escolhas estilísticas (que envolvem, dentre outros aspectos, o gerenciamento de vozes, o uso de modalizadores e o emprego das pessoas verbais) sinalizadoras do funcionamento enunciativo-discursivo que caracteriza toda forma de interação comunicativa (BAKHTIN, 2016BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2016.).

Dessa forma, é produzida uma representação de que a revisão e a reescrita textuais são atividades muito mais simples do que efetivamente são, ainda que fazer uma higienização gramatical e uma correção de ortografia e de pontuação também não sejam exercícios de fácil enfrentamento por qualquer produtor. Não por acaso, constatamos, nos sites e blogs analisados, a sugestão de delegar tais tarefas a corretores automáticos e/ou especialistas nessas atividades.

iv) delimitação de quantidade de revisões e/ou reescritas

Quando se entende que a escrita é uma atividade processual, está implicada, necessariamente, a ideia de que escrever e reescrever compreende um movimento interativo de idas e vindas sobre o texto (ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.). Nesse sentido, produzir um texto de natureza científica tende a envolver variadas e sucessivas intervenções, sobretudo quando se tem em vista o aprimoramento de um produto. Tal concepção direciona a compreensão de que o trabalho de revisão e reescrita pode implicar diversas intervenções sobre a versão inicial de um texto, afinal, o olhar de um (ou de mais um) interlocutor abre possibilidades infinitas de melhoria da qualidade de um texto.

Nas orientações de 3 (três) dos sites e blogs examinados, a compreensão de sucessivas intervenções na escrita do texto científico aparece enfatizada em relação ao aspecto da quantidade de revisões/reescritas necessárias para produção de artigos científicos e monografias. A seguir, ilustramos dois desses casos:

(9)

Você vai fazer o texto, revisar e encaminhar para o seu orientador. Por sua vez, o professor vai olhar, sugerir correções, alterar alguns pontos e lhe devolver o trabalho. Essa dinâmica vai se repetir dezenas de vezes até o prazo de entrega e a versão final de sua monografia. (OM9). (grifos são nossos).

(10)

Algumas pessoas têm mais facilidade, enquanto outras demandam mais tempo e treino para produzir textos de qualidade. A dica é: escreva e reescreva quantas vezes for necessário. Não economize em lápis e borracha ou no tempo digitando e apagando. Só se aprende a escrever, escrevendo. (OAC10) (grifos são nossos).

Podemos observar que as orientações procuram valorizar o trabalho de revisão e reescrita do texto científico ressaltando a necessidade de que o revisar e o reescrever compreendam vários momentos de retorno do produtor ao seu texto. Há aí, portanto, a indicação explícita de que tal prática seja efetuada desde um mínimo de duas vezes até uma quantidade indeterminada, cuja medida adequada se define pela necessidade do produtor. Nos demais sites e blogs nos quais há orientações de revisão e reescrita, existe apenas explicitação de que se revise o texto, sem preocupação em indicar qualquer quantidade.

Não se trata, evidentemente, de pressupor uma suposta existência de uma prescrição em relação à necessidade de realizar um número determinado de revisões/reescritas ou sustentar a ideia de que, quanto mais vezes se pratique, melhor será o produto definitivo. Afinal, é preciso considerar que o fundamental é “escrever e reescrever quantas vezes for necessário” em função da adequação do texto aos propósitos, à situação comunicativa e aos interlocutores implicados. Fica claro que não diz respeito a uma tarefa burocrática, para cumprir uma exigência escolar (GERALDI, 1997GERALDI, João Wanderley. Portos de passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.), mas sim a uma atividade pensada com vistas a uma atuação verbal bem-sucedida comunicativamente (ANTUNES, 2003ANTUNES, Irandé. Aula de Português: encontro & interação. São Paulo: Parábola, 2003.), para a qual as idas e vindas, quantas vezes se fizerem necessárias, constituem uma dinâmica própria da ação comunicativa do sujeito produtor de textos.

v) indicação de distanciamento temporal

A dimensão temporal é concebida como um elemento que caracteriza a atividade de produção de textos em uma perspectiva processual, interativa, conforme ressaltam as discussões empreendidas nos campos da linguagem e da educação, algumas delas apontadas na seção teórica deste trabalho. Essas discussões propõem que se considere um tempo entre a primeira versão de um texto e sua versão definitiva, entendendo que o distanciamento temporal contribui para que o produtor possa olhar o seu texto na condição de leitor e/ou revisor, permitindo, como dizem Pasquier e Dolz (1996)PASQUIER, Auguste; DOLZ, Joaquim. Um decálogo para ensinar a escrever. Cultura y Educación, Madrid, v. 2, p. 31-41, 1996., uma liberdade de ação maior na obra final. Tal aspecto é enfatizado em orientações de 5 (cinco) dos sites e blogs investigados, dos quais reproduzimos 2 (dois) excertos por nós considerados mais representativos:

(11)

Ao longo do processo descrito acima é importante sempre tentar se distanciar do manuscrito e tentar revê-lo com “olhos de revisor. Se esse trabalho tivesse sido submetido para publicação por algum outro grupo, quais seriam as suas críticas ao trabalho como revisor? Frequentemente eu deixo o artigo “na gaveta” por algumas semanas antes de submetê-lo. (OAC6) (grifos são nossos).

(12)

Mas nem pense em revisar logo depois de escrever! O texto precisa “descansar” por alguns dias (e você também!). Até porque leituras apressadas nunca conseguem detectar bem as falhas do texto. (OAC8) (grifos são nossos).

Podemos verificar, nos 2 (dois) excertos acima, o aspecto do distanciamento temporal como importante postura a ser assumida pelo produtor de textos científicos, como condição para o aprimoramento do produto via processo de revisão e reescrita textual. A ideia do distanciamento temporal necessário ao processo de produção textual reitera que não se pode revisar e reescrever o texto imediatamente ao ato da execução/operação da escrita.

As orientações examinadas sinalizam que as “falhas”, os “erros” e os problemas passíveis de passar despercebidos numa primeira versão do texto podem ser sanados com a destinação de um momento/tempo em que se deixa o texto “na gaveta”, para “descansar”, antes de finalizá-lo. Nos sites e blogs, explicita-se, muito claramente, a defesa de “um ou dois dias”, “alguns dias” e “algumas semanas” como medida temporal necessária para que o produtor se volte sobre o seu texto.

Esse direcionamento do distanciamento temporal, mesmo que não se concretize na maioria dos blogs e sites analisados, é fundamental enquanto possibilidade para se conceber, conforme Suassuna (2011)SUASSUNA, Lívia. Avaliação e reescrita de textos escolares: a mediação do professor. In: ELIAS, Vanda Maria (org.). Ensino de língua portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2011. p. 119-134., o deslocamento do produtor de sua posição de enunciador para a posição de leitor, possibilitando que ele (produtor) possa, por conseguinte, refletir sobre suas escolhas e avaliá-las na reconstrução do seu texto, postura essencial, sobretudo para quem se propõe a produzir um texto científico para publicação em periódicos especializados.

A análise da presença de orientações sobre revisão e reescrita de textos científicos e do modo como tais orientações concebem e encaminham essas atividades indica que os sites e blogs examinados dão pouca atenção a essas etapas fundamentais do processo de produção de textos científicos dos gêneros monografia e artigo científico. Dada a ênfase que se dá à produção de artigos científicos para publicação em periódicos, podemos perceber um enfoque maior sobre aspectos da revisão e reescrita desse gênero, que acabam por ser explorados sem, necessariamente, a consideração de suas especificidades constituintes, tampouco aquelas que caracterizam as culturas disciplinares (NAVARRO, 2014NAVARRO, Frederico. Géneros discursivos e ingresso a las culturas disciplinares: aportes para uma didáctica de la lectura y la escritura en educación superior. In: NAVARRO, Frederico. (coord.), Manual de escritura para carreras de humanidades. Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras Universidad de Buenos Aires, 2014. p. 29-52.; CARLINO, 2017CARLINO, Paula. Escrever, ler e aprender na universidade: uma introdução à alfabetização acadêmica. Petrópolis: Vozes, 2017.).

Nossa análise confirma, além disso, que há poucos sites e blogs nos quais se evidencia uma preocupação com a revisão e reescrita textual como momentos interdependentes da prática de produção textual, entendida como atividade interlocutiva, processual, interativa, na qual está implicada a ação do sujeito produtor sobre o próprio texto.

Conclusão

Movidos pelo interesse em compreender dizeres e saberes sobre a escrita de textos científicos que são dados a veicular no universo da internet, objetivamos, neste trabalho, nos interrogar sobre o tratamento dado à revisão e à reescrita de textos em materiais de natureza educativa/instrutiva, retirados da internet, e destinados a apresentar orientações para o desenvolvimento da escrita de textos científicos.

Tomando como ancoragem teórica trabalhos de pesquisadores que discutem a respeito da escrita científica, produção textual e revisão e reescrita de textos, e recortando um corpus constituído de 40 textos com orientações sobre a produção de artigos científicos e monografias coletados em sites e blogs, procuramos examinar em que medida os textos recortados contemplam orientações e/ou sugestões sobre as atividades de revisão e reescrita de textos científicos e como eles concebem e encaminham/direcionam o desenvolvimento dessas atividades.

Os resultados da análise aqui empreendida confirmam que, embora sejam amplamente discutidas no campo dos estudos da linguagem e da educação, a revisão e a reescrita de textos não recebem a atenção devida nas orientações apresentadas nos textos examinados. Ao contrário, pudemos constatar uma presença muito tímida de orientações que explicitem a importância e a necessidade do revisar e do reescrever como etapas inerentes à produção de textos científicos.

Além disso, foi possível observar a existência de um espaço muito restrito de orientações que enfatizem e valorizem as dimensões interlocutiva, interativa e processual que constituem as práticas comunicativas. Não por acaso, inclusive, prevaleçam os aspectos mais formais da língua quando se explicitam os elementos a serem apontados e considerados no processo de revisão e reescrita dos textos. Isso revela, portanto, uma visão restrita do funcionamento da linguagem na escrita científica, o qual é, consideradas as especificidades e convenções da esfera acadêmico-científica, complexo e multifacetado por natureza (BAKHTIN, 2016BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Organização, tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra. São Paulo: 34, 2016.).

Portanto, esses resultados demonstram que, embora ofereçam vantagens inerentes ao universo digital, como, por exemplo, facilitar o acesso e considerar a disponibilidade dos leitores para aprenderem no seu tempo, a maioria dos sites e blogs analisados tem um compromisso acentuadamente comercial, voltado, pois, para a prestação de serviços de revisão, de tradução e de assessoria para elaboração de monografias, dissertações, dentre outros gêneros do discurso. Assim, compreendemos que, embora algumas das orientações analisadas sejam, em alguma medida, pertinentes e produtivas para os leitores, sobretudo para aqueles que praticam leituras mais apressadas de textos que circulam no universo da internet, a avaliação feita do conjunto de textos do corpus revela que a maioria dos sites e blogs analisados contemplam, de maneira precária e restrita, aspectos implicados na prática de escrever e reescrever textos científicos, contribuindo, no mais das vezes, para produzir uma imagem fragmentada do que é efetivamente a prática de produção de textos na esfera científica.

Assim sendo, é prudente considerar e alertar que parte expressiva desses sites e blogs não constitui uma fonte de informação e/ou pesquisa plenamente adequada e satisfatória, especialmente quando se pensa a preparação/formação do leitor/produtor para uma atuação verbal bem-sucedida na produção de textos científicos. Dessa forma, percebemos a necessidade que temos de formar estudantes de graduação e pesquisadores em início de carreira capazes de desenvolver uma leitura crítica desses materiais disponíveis no universo digital.

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    - Os textos que compõem o corpus foram por nós codificados observando a seguinte identificação: OAC1, OAC2, OAC3..., e assim por diante, em que O corresponde à Orientação, AC se referem às letras iniciais do termo Artigo Científico, e os numerais cardinais 1, 2, 3... correspondem à ordem numérica, estabelecida aleatoriamente, dos textos em nosso corpus. Quando, em vez de AC, utilizamos M, significa dizer que a codificação se refere à Monografia.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Dez 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    24 Jun 2019
  • Revisado
    08 Out 2019
  • Aceito
    12 Nov 2019
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